Capítulo 4 — A Flor que Não Florescia
Partager
O Reino das Flores parecia mais silencioso naquele dia.
Leonor sentiu isso logo ao dar os primeiros passos.
O ar estava mais pesado… como se algo estivesse errado.
— Está tudo diferente… — sussurrou.
Mimi Margarida não saltava como de costume.
Lavínia estava mais quieta.
Até o Sol Girassol parecia menos brilhante.
— Há algo que precisas de ver — disse Lavínia, com voz suave.
Leonor seguiu-as por um pequeno caminho escondido entre folhas altas.
Quanto mais avançavam, mais o silêncio crescia.
Até que chegaram.
No centro de um pequeno espaço… estava uma flor.
Ou melhor… quase.
As suas pétalas estavam fechadas, pálidas, como se tivessem esquecido como se abrir.
O seu caule inclinava-se ligeiramente, cansado.
Leonor aproximou-se devagar.
— O que aconteceu?
Mimi falou baixinho:
— Ela chama-se Lira.
— Lira… — repetiu Leonor, ajoelhando-se ao lado da flor.
— Ela já foi uma das flores mais bonitas do reino — explicou Sol. — Brilhava… fazia todos sorrirem.
— E agora? — perguntou Leonor, com cuidado.
Lavínia respondeu:
— Agora… ela não consegue florescer.
Leonor sentiu um aperto no peito.
— Porquê?
As flores trocaram um silêncio.
Até que uma pequena voz… muito fraca… se fez ouvir.
— Porque… eu esqueci-me…
Leonor olhou rapidamente para Lira.
— Esqueceste-te de quê?
Demorou um pouco… mas a resposta veio, quase como um sopro:
— De sentir.
O coração de Leonor apertou-se ainda mais.
— Como assim…?
Lira não respondeu logo.
Uma pétala tremeu levemente.
— Um dia… tentei ser perfeita… — disse, com dificuldade. — Queria ser a mais bonita… a mais admirada…
Mas comecei a ouvir demasiado os outros… e deixei de me ouvir a mim.
O silêncio caiu sobre o jardim.
— E então… — continuou Lira — deixei de saber quem sou.
Uma pétala soltou-se… e caiu.
Leonor ficou sem palavras.
Olhou para as outras flores.
— Não há nada que possamos fazer?
Mimi baixou a cabeça.
— Já tentámos tudo…
Lavínia aproximou-se de Leonor.
— Talvez… não tudo.
Leonor olhou para Lira novamente.
Com muito cuidado, estendeu a mão… e tocou suavemente na sua pétala.
— Eu estou aqui — disse baixinho.
Nada aconteceu.
Mas Leonor não desistiu.
— Não precisas de ser perfeita… — continuou. — Só precisas de ser tu.
Uma brisa leve passou.
As pétalas de Lira mexeram-se quase imperceptivelmente.
Leonor sorriu, com esperança.
Talvez…
Talvez fosse possível.